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Por que é tão difícil imaginar e se preparar para um desastre?

"Algumas pessoas não sabem o que fazer ao se preparar para um desastre”, diz Dra. Laure Pearce, membro do corpo docente de Victoria Royal Roads University – BC – Canada, que ensina no programa de mestrado em Gestão de Desastres e Emergências. Ela acrescenta: "parte disso é a negação". 

Quando se trata de enfrentar os riscos de catástrofes em larga escala - seja a ameaça de guerra nuclear, um ataque terrorista, um furacão ou um incêndio - muitas pessoas têm dificuldade em imaginar (e de se preparar para) os piores cenários.

Alguns veículos de mídia, por exemplo, registraram que moradores de Guam, território norte-americano no Pacífico, não se sentem afetados pela ameaça de mísseis norte-coreanos. "Não tenho medo. A vida continua e temos confiança em Deus e nos nossos militares", disse Keandra McDonald, estudante da Universidade de Guam, à ABC News - Austrália.

Quando o furacão Irma se aproximou da Flórida, alguns jornalistas descartaram alertas e orientações para mudança de rotas. Para Adriana Spitale Del Campo, ouvida pelo Wall Street Jornal,"preocupar-se de antemão é inútil".

Uma explicação para as pessoas desprezarem as previsões é o fato de que elas podem não entender completamente o risco, diz Pearce. Outros, ela sugere, acham a perspectiva de uma catástrofe em larga escala algo incomum.

Imagens de edifícios inteiros achatados este mês pelo terremoto de magnitude 8,1 que atingiu o sul do México, por exemplo, podem fazer as pessoas se sentirem impotentes para se prepararem para um evento similar.

"Quando as pessoas veem todas essas situações horríveis ... elas se sentem impotentes ou renunciaram a não fazer nada porque não dispõem dos recursos para se preparar’, diz a professora.

Essas atitudes de negação comprometem a nossa imaginação e o nosso interesse em pensar em desgraça e tristeza e, consequentemente, bloqueiam a nossa capacidade de planejar e de se preparar para uma situação extrema.

As opiniões e os comportamentos coletivos também influenciam a forma como as pessoas respondem às situações de emergência, diz Pearce. Elas querem tomar uma decisão como um grupo.

Um fato curioso pôde ser observado em uma pesquisa sobre a evacuação do World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001, que revelou que muitos trabalhadores estavam preocupados em sair sem a aprovação de seus chefes.

Muitos demoraram a desocupar os prédios para atender as tarefas de última hora, como reunir seus itens pessoais, fazer chamadas telefônicas ou desligar seus computadores, de acordo com um estudo publicado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. Pareciam não compreender a urgência de sua situação. "Algumas dessas decisões custam às pessoas as suas vidas", diz Pearce.

A pesquisa também mostrou que muitos podem subestimar o perigo que enfrentam e serem excessivamente confiantes em sua capacidade de superá-lo, diz o Dr. Etsuko Yasui, professor associado de Catástrofes Aplicadas e Estudos de Emergência na Universidade de Brandon.

Yasui explica que os pesquisadores descobriram que as pessoas tomam decisões com base em suas experiências anteriores. Isso significa que se você já experimentou a passagem de um furacão por sua região sem consequências drásticas, provavelmente abordará o próximo da mesma maneira.

Da mesma forma, pode-se esperar que, se nunca viveu os exercícios de ataques nucleares durante a Guerra Fria, você pode estar menos alarmado com a troca de ameaças entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte.

"Se as pessoas não conseguem entender com precisão a escala do evento, é difícil para elas imaginar seus impactos ", afirma Yasui.

Em trecho de “Risk Conundrums: Solução de problemas insolúveis“, publicado no início deste ano, os autores Howard Kunreuther, Paul Slovic e Kimberly Olson apontam esse tipo de "viés de disponibilidade" que as pessoas têm de subestimar a probabilidade de um desastre antes de ocorrer e superestimá-lo depois.

Esse pensamento ajuda a explicar por que muitos geralmente compram seguros logo após um desastre, mas depois cancelam suas apólices depois de vários anos sem perda.

Mas, então, “o que pode parecer irracional para uns, pode ser perfeitamente racional para os outros", diz Yasui. Em outras palavras, as pessoas interpretam riscos de forma diferente.

O problema para os especialistas em gestão de desastres é que existe uma grande variedade de fatores que influenciam a forma como cada indivíduo percebe o risco e como ele se comporta, diz o Dr. Ali Asgary, professor associado de Gestão de Desastres e Emergências na Universidade de York. Ele assinala que especialistas de uma ampla gama de disciplinas, desde psicólogos até geólogos, passaram décadas tentando provocá-las.

Alguns desses fatores envolvem o risco em si. Por exemplo, a proximidade física de um furacão ou zona de terremoto, enquanto outros podem ser considerados fatores informativos, como o tipo de cobertura de mídia disponível.

Há também uma série de fatores pessoais, incluindo idade, educação e gênero, diz Asgary, observando que, em algumas situações, as mulheres foram mais cautelosas do que os homens, particularmente quando têm filhos.

Fatores socioeconômicos ou contextuais, que incluem o nível de confiança de um indivíduo nas instituições, também desempenham um papel na percepção e reação ao risco, diz ele.

Reconhecer o envolvimento de todos esses fatores significa que não existe uma abordagem única para incentivar o público a se preparar para um desastre, diz ele. As advertências e os esforços de preparação seriam mais eficazes se fossem direcionados a grupos específicos, com base na maneira como eles percebem o risco.

Além disso, ele acrescenta que as pessoas são mais propensas a atender avisos e agir se forem encorajados a participar do processo quando se trata de planejamento e gerenciamento de desastres, como por exemplo, simulados de emergência ou workshops.

Outro aspecto a ser ressaltado é o fato de que as pessoas bem informadas em relação ao risco se sentem engajadas e estimuladas a tomar medidas necessárias para minimizar a exposição ao pior cenário, reduzindo o nível de risco para um cenário mais aceitável.

Quando o indivíduo é envolvido na discussão e participa do planejamento, ele se sente muito mais capacitado e comprometido com as ações para a mitigação de risco.

Em geral, diz Asgary, quando as pessoas sentem que podem fazer algo para reduzir o risco é que então elas reagirão positivamente aos esforços necessários para o planejamento e resposta.